sábado, 7 de outubro de 2017

Você sabe quem é o Dalai-Lama?



Após a vitória da Revolução Chinesa, os comunistas tomavam o poder no Tibet, região que no curso dos dois séculos anteriores, nem um só país no mundo havia reconhecido como um país independente. A comunidade internacional considerava o território parte integrante de China. Como por exemplo a Índia e a Inglaterra, a mesma que há 40 anos dominava a região. Só os EUA se mostraram vacilantes. Até a Segunda Guerra Mundial, consideravam o Tibet como uma parte da China e procuravam frear os avanços da Inglaterra sobre o território. Porém, após a guerra, Washington decidiu fazer do Tibet um enclave religioso contra o comunismo.

Em 1951, a elite tibetana concordou em negociar com a China uma “liberação pacífica”. Cinco anos depois, no entanto, pressionadas pelo movimento camponês, as autoridades decidiram por uma reforma agrária em alguns territórios tibetanos. Era a senha para o conflito. A elite local repeliu a iniciativa e provocou o levante armado de 1959. A revolta foi preparada durante vários anos, sob a direção do serviço secreto dos EUA, a CIA. É o que registra o livro de 300 páginas “The CIA's Secret War in Tibet” de Kenneth Conboy. Uma obra que o especialista da CIA, William Leary, definiu como “um impressionante estudo sobre uma das operações secretas da CIA mais importantes durante a guerra fria”.

Outro livro, “Buddha's Warriors – The story of the CIA-backed Tibetan Freedom Fighters”, de Mikel Dunham, de 434 páginas, explica como a CIA levou centenas de tibetanos aos EUA para treinamento bélico e como lhes supriu de armas modernas. O prefácio desta obra foi redigido por “sua Santidade o Dalai-Lama”, que considerou uma honra o fato de que a rebelião separatista armada tenha sido dirigida pela CIA. Porque “Os EUA são os campeões da Democracia e da Liberdade”.

Em outubro passado, o parlamento estadunidense entregava ao Dalai-Lama a Medalha de Ouro, a condecoração mais importante que pode entregar. Sua (sempre sorridente) “Santidade” pronunciou um discurso onde louvava Bush por seus “esforços a nível mundial em favor da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos”. Fica evidente quem financia o Dalai-Lama e seus monges, não só por seu anticomunismo hidrófobo como também por seu racismo fascista que condena os casamentos entre tibetanos e os “demais”. Fica fácil entender a mobilização da mídia ocidental contra a China, sobretudo em vésperas de uma importante eleição em Taiwan e a aproximação das olimpíadas de Pequim.

O pretexto para balbúrdia de agora foi lembrar ação golpista derrotada em 1959, quando o Dalai-Lama tentava separar o Tibet para restaurar o regime ditatorial dos Lamas naquele território da China Popular. Derrotado, fugiu, acobertado pelos EUA. Ao longo dos anos 60, a comunidade de exilados tibetana embolsou 1,7 milhões de dólares por ano da CIA, como consta nos documentos liberados pelo próprio Departamento de Estado em 1998. Depois que este fato ficou público, a organização do Dalai-Lama emitiu uma declaração admitindo haver recebido milhões de dólares da CIA naquele período, com o objetivo de enviar pelotões armados de exilados para o Tibet para minar a revolução socialista.

O pagamento anual pessoal do Dalai-Lama reconhecido pela CIA era de US$186.000, assinalou Tom Grunfeld, em seu livro The Making of Modern Tibet. Atualmente, através do Fundo Nacional para a Democracia e outros canais que servem de fachada “respeitável” para os financiamentos da CIA, o governo dos EUA continua a destinar US$ 2 milhões anuais para os separatistas tibetanos que atuam na Índia, com milhões adicionais para a comunidade de exilados tibetanos em outros lugares. O Dalai-Lama também obtém dinheiro do especulador George Soros, que dirige a Radio Free Europe e Radio Liberty, ambas também vinculadas à CIA, ressaltou Michael Parenti, escritor e historiador estadunidense.”

Descubra quem é o ''pacifista'' dalai-lama

Incensado pelo ocidente como uma figura impoluta, lutadora da paz e da não-violência, o dalai-lama, ou Tenzin Gyatso, está longe de merecer o epíteto de pacifista que a mídia ocidental lhe aplicou nos últimos 50 anos. Aliado há longa data do regime americano, e recentemente de Bush, o dalai-lama não é parte integrante das lutas dos povos pela democracia e a paz mundial.

Exilado em Dharamsala, na Índia, onde está à testa de uma comunidade de 120 mil tibetanos, o 14.º dalai-lama é apresentado, desde 1959, pelos meios de comunicação, como ''um dos maiores defensores da paz no mundo'' e ''líder espiritual''. Seus gestos desmentem esses epítetos.

Em 2003, o ''líder espiritual'' budista passou 18 dias nos Estados Unidos, onde se encontrou com o presidente do país, George W. Bush e o então secretário de Estado, Colin Powell. Os EUA tinham recentemente estabelecido o Tibetan Policy Act, uma lei que regularizava a ajuda aos separatistas, em 2002.

O que disse e fez por lá revela que o homem que ostenta o título de Prêmio Nobel da Paz, obtido em 1989, age de forma diametralmente oposta ao discurso que mantém.

A Casa Branca não divulgou o teor das conversas, mas, a julgar pelas declarações posteriores do dalai-lama, um dos resultados da visita foi sua incorporação à política de guerras preventivas, aspecto central da estratégia agressiva do imperialismo norte-americano na atualidade.

''É muito cedo para dizer se a guerra no Iraque foi um erro'', afirmou, para acrescentar em seguida sua convicção de que é necessário ''reprimir o terrorismo'', sem explicar o que queria dizer com ''reprimir''.

Participação no poder chinês

Em 1954, o décimo quarto Dalai-Lama participou da primeira Assembléia Nacional Popular da China, que elaborou a Constituição da República Popular, tendo sido eleito como um dos vice-presidentes do Comitê Permanente dessa Assembléia.
Na ocasião, pronunciou um discurso afirmando: ''Os rumores de que o Partido Comunista da China e o governo popular central arruinariam a religião do Tibete, foram refutados. O povo tibetano tem gozado de liberdade em suas crenças religiosas''.

Em 1956, o dalai-lama assumiu a presidência do comitê provisório encarregado de organizar a região autônoma do Tibete. As relações entre os governos central e local estavam, portanto, normalizadas.

O conflito ressurgiu quando se cogitou em promover a reforma democrática do Tibete, separando a religião do Estado, abolindo a servidão rural e a escravidão doméstica, e redistribuindo a propriedade das terras e dos rebanhos, monopolizada pela aristocracia civil e pelos mosteiros.

Após o exílio, o dalai-lama, cercado pelas forças anti-chinesas e por separatistas tibetanos, traiu completamente sua posição patriótica original. A facção pró-ocidental, aproveitando-se da insatisfação entre lamas e nobres, retomou a ofensiva.

Agitando as bandeiras separatista e religiosa, e apoiada pela CIA cada vez mais desinibidamente, como hoje se reconhece, essa facção fundou uma organização política, a ''Quatro Rios e Seis Montanhas'' e uma organização militar, o ''Exército de Defesa da Religião” e iniciou, em 1956, ataques armados a funcionários e prédios públicos, a obras de infra-estrutura e, até mesmo, a tibetanos que apoiassem o movimento democratizador.

Como reencarnar estando ainda vivo?

Traindo seus princípios religiosos, em novembro passado, o dalai-lama propôs que, em vez de esperar que os sábios religiosos encontrassem a próxima encarnação após sua morte, ele mesmo escolhesse sua própria encarnação. Geralmente, depois da morte do dalai-lama, autoridades budistas tibetanas, orientadas por sonhos e sinais, identificam uma criança que vai substituir o líder morto.

Para impor seu método e estabelecer uma linha sucessória segura para os separatistas, o dalai-lama propôs então um ''referendo'' entre os budistas tibetanos, sobre mudar ou não o atual processo de reencarnação, de modo que ele pudesse ter influência na escolha de seu sucessor. A idéia não foi bem recebida pelos budistas, porque contraria a lógica religiosa : como encontrar sua alma em outro corpo, se você ainda não desencarnou ?

Antidesenvolvimento

O governo central da China inaugurou em 2006 a maior ferrovia do mundo, ligando o Tibete ao resto do país. A ferrovia custou 4,1 milhões (sic) de dólares e atravessa o platô tibetano, para ligar Lhasa aos centros econômicos da China.

A ferrovia é uma ferramenta vital para a economia tibetana, a mais pobre da China, mas o dalai-lama e os separatistas consideram a estrada-de-ferro uma ''ameaça''. Alegam que a ferrovia trouxe ''novos ocupantes'' e é um meio de ''roubar'' as riquezas naturais do Tibete.
Desde 1985, o Tibete é uma ''zona de turismo livre'', substituindo o ''turismo acompanhado'' que vigorava até então. A ferrovia veio apenas aumentar o desenvolvimento econômico local.

Esta semana, Tenzin Gyatso lançou pela mídia um apelo vazio, para que a ''comunidade internacional'' investigue o que chamou de ''genocídio cultural'' no Tibete, após a violência perpetrada, nas ruas de Lhasa, por monges e seus seguidores.

O ouro de Washington

De acordo com o historiador americano Jim Mann, citado pelo site Global Research, ''durante os anos 1950 e 1960, a CIA apoiou ativamente a causa tibetana com armas, treinamento militar, dinheiro, apoio aéreo e todo o tipo de auxílio''. Além de Mann, outro estudioso das ações da CIA na Ásia, Michael Parenti, fez recentemente a seguinte observação :

''...nos Estados Unidos, a Sociedade Americana Por uma Ásia Livre, uma fachada da CIA, propagandeou ferozmente a causa da resistência tibetana -- com o irmão mais novo do dalai-lama, Thubtan Norbu, tendo um papel ativo nessa organização. Outro irmão, também mais novo, do dalai-lama, Gyalo Thondup, estabeleceu uma célula de operação de ''inteligência'' com a CIA em 1951 (embora o apoio oficial da agência tenha sido estabelecido somente em 1956). Mais tarde, essa célula foi treinada e transformada em uma unidade de guerrilha da CIA, tendo seus recrutas sido lançados no Tibete de pára-quedas."

De acordo com documentos abertos pela inteligência americana no fim da década de 1990, revelou-se que o movimento tibetano no exílio recebeu, na década de 1960, cerca de 1,7 milhões de dólares por ano, para operações contra a China, enquanto 180 mil dólares anuais eram pagos regiamente ao dalai-lama.

Em 1969, entretanto, o apoio secreto pela causa tibetana foi interpretado pela CIA como infrutífero e a agência de espionagem decidiu retirar a ajuda aos ''revolucionários'' tibetanos.

No entanto, a ajuda monetária anual ao ''pacifista'' dalai-lama perdurou até 1974, quando Nixon normalizou as relações com a China. O presidente que lhe sucedeu, Gerald Ford, encerrou o envolvimento da administração americana com os exilados tibetanos, num novo contexto da estratégia americana para a Guerra Fria.

A fase seguinte do relacionamento entre os Estados Unidos, o dalai-lama e seus apoiadores foi direcionar a opinião pública mundial a considerar o Tibete como uma questão de direitos humanos, num engajamento político contra a China.

Em 1979, a relação entre o regime americano e o dalai-lama sofre uma nova modificação, com o ''pacifista'' obtendo um visto de entrada nos EUA sob a administração Carter. A ''causa tibetana'' encontra então novos patrocinadores, com representantes do congresso americano trabalhando em conjunto com os separatistas tibetanos para enfocarem a atenção dos governos seguintes e do resto do mundo na ''questão tibetana''.

Nos dias de hoje, a ajuda financeira e política aos exilados tibetanos parte de um poderoso braço da CIA, a National Endowment for Democracy, organismo criado a partir de 1984, sob a administração Reagan, que patrocina e subsidia movimentos pró-americanos ao redor do planeta, como os que recentemente derrubaram os governos da ex-Iugoslávia em 2002, Geórgia em 2004 e Ucrânia em 2005.

Um dos trabalhos da NED, desde a década de 1990, é propalar os discursos e ações ''pacifistas'' do dalai-lama ao redor do planeta.


(fonte: Pravda)

QUAL O SENTIDO DA VIDA?


Roberto F. Costa

Voltaire afirmava que os homens nascem e morrem, no infindável suceder das gerações, deixando como marco de sua passagem pelo planeta, apenas uma possível contribuição para a evolução da humanidade.

Dizia também, que a vasta maioria dos homens somente servia para reproduzir exatamente o sistema que receberam da geração imediatamente antecedente, em nada contribuindo para a evolução do homem enquanto espécie, o que era sintetizado no adágio "nos numerus summus et consumere fruges nati" (=nós nascemos apenas para fazer número e consumir os frutos da terra), que equivale a dizer que a imensa maioria da população mundial não serve para nada, e que a humanidade só avança pela diligência de uns poucos.

Por outro lado, Mikhail Bakunin alegava que atrás de nós, no nosso passado, temos a animalidade, quando andávamos de quatro e temíamos a lua, o sol e os raios como deuses, depois passando a humanidade pelo estágio intermediário de predomínio dos deuses e mitos, quando estava apenas genuflexa a divindades, somente com o advento da ciência do século XX se permitindo levantar e caminhar, altivo e altaneiro, com o olhar fixo em sua humanidade, um ideal a alcançar.

Veja que o super-homem de Friedrich Nietzsche não tem nenhum dos super-poderes de seu homônimo ianque, mero plágio mal-disfarçado, mas é aquele que finalmente assumiu a consciência e as conseqüências de sua humanidade, a responsabilidade sobre seu futuro, antes deixada a cargo dos projetos divinos. Morto deus, está o homem órfão e sozinho, somente tendo a si próprio como medida das coisas...

Não sabemos sobre o senso que anima a moira Láquesis, de nada adiantando apelar à sua mãe Themis, que é indiferente a tais reclamações; e como não sabemos o dia da nossa morte, temos que fazer com que cada dia tenha valido algo, e não apenas o passar do tempo, comendo, transando e entorpecendo os sentidos para esquecer o objetivo maior, que é a humanização.

Mas veja que o homem tem seu expoente máximo no reino das idéias e significados e, assim, se algum sentido teleológico pode haver para nossa existência, esse só pode ser encontrado no terreno da cultura.

Rhett Butler, o personagem de Clark Gable, em "Gone With the Wind..." era um sulista cínico, certo da supremacia militar do Norte na Guerra de Secessão, e portanto convencido da inevitável derrocada das forças sulistas. Apesar disso, mesmo se mantendo neutro durante toda a guerra civil, alistou-se com o General Lee quando não havia mais a possibilidade de vitória, preferindo cerrar fileiras com os derrotados do momento por uma questão de honra, em que pese com isso mais uma vez comprando o ódio de seu amor Scarlet O'Hara, interpretado pela linda Vivien Leigh.

É o eterno conflito na alma humana entre o feijão e o sonho, imortalizado por Orígenes Lessa, onde tentamos a todo momento ponderar entre a satisfação hedonista da nossa existência imediata e a compulsão pela transcendência, de sermos mais importantes do que uma simples máquina comedora de alimentos e fazedora de cocô.

Morreremos todos, é certo. Mas se diferença existe entre uma vida e outra, a honradez é o fiel da balança na qual as pesamos. Se podemos classificar de poética a atitude de Rhett Butler, é porque a poesia, comum a toda arte, é uma recriação idealizada da realidade e portanto a estrela que perseguimos almejando nossa humanidade.


Em suma, se existe sentido para a vida, só pode ser encontrado na dedicação a uma causa na qual acreditamos, mesmo sabendo que jamais colheremos o resultado de uma possível longínqua vitória, mas sim que ajudamos a asfaltar a estrada das futuras gerações em seu caminho para a humanização; mesmo sabendo que nosso trabalho e vida serão por elas ignorados a nível individual, ou que nosso sacrifício pode ser vão ou inócuo, que nossa utopia seja irrealizável, mas com a certeza de que vivemos e morremos como homens, e não como animais irracionais...

quinta-feira, 24 de agosto de 2017




A Verdade entrevistou Grover Furr, professor da Universidade de Montclair, no Estado de Nova Jersey, EUA, e autor do livro Antistalinskaia Podlost (“A infâmia antistalinista”), lançado recentemente em Moscou, na Rússia. Grover Furr é ph.D. em literatura comparada (medieval) pela Universidade de Princeton, e, desde 1970, ensina na Universidade de Montclair, sendo responsável pelos cursos de Guerra do Vietnã e Literatura de Protesto Social, entre outros. Suas principais áreas de pesquisa são o marxismo, a história da URSS e do movimento comunista internacional e os movimentos políticos e sociais. Nesta entrevista, o professor Grover fala de sua pesquisa e afirma que “60 de 61 acusações que  o primeiro-ministro Nikita Kruschev fez contra Stálin são comprovadamente falsas”.

A Verdade – Recentemente, um grande número de livros tem sido publicado atacando a pessoa e a obra de Josef Stálin. Como o senhor explica a intensificação desse antistalinismo nos EUA e no mundo?
Grover Furr – Desde o fim da década de 1920, Stálin tem sido o maior alvo do anticomunismo ideológico e acadêmico. Leon Trótsky atacava Stálin para justificar sua própria incapacidade de ganhar as massas trabalhadoras da União Soviética [URSS]. A verdadeira causa da derrota de Trótsky é que sua interpretação do marxismo – um tipo de determinismo econômico extremado – predizia que a revolução estava fadada ao fracasso a não ser que fosse seguida por outras revoluções nos países industrialmente avançados. Mas a liderança do Partido preferiu o plano de Stálin para primeiro construir o socialismo em um só país. As ideias de Trótsky tiveram (e ainda têm) uma grande influência sobre todos aqueles declaradamente capitalistas e anticomunistas. Os historiadores trotskistas são muito bem acolhidos pelos historiadores capitalistas. Pierre Broué e Vadim Rogovin, os mais proeminentes historiadores trotskistas das últimas décadas, já foram louvados e ainda são frequentemente citados por historiadores abertamente reacionários. Muitos na liderança do Partido em 1930 combateram Stálin quando este lutava por democracia interna no Partido e, especialmente, por eleições democráticas para os sovietes. As grandes conspirações da década de 1930 revelaram a existência de uma ampla corrente de oposição às políticas associadas a Stálin. Essas conspirações de fato existiam: os oposicionistas realmente estavam tentando derrubar o partido soviético e assassinar a liderança do governo, ou tomar o poder liderando uma revolta na retaguarda, em colaboração com os alemães e os japoneses. Nikolai Ezhov, líder da NKVD (o Comissariado do Povo para Assuntos Internos), tinha sua própria conspiração direitista, incluindo colaboração com o Eixo. Visando aos seus próprios fins; ele executou centenas de milhares de cidadãos soviéticos completamente inocentes para minar a confiança e a lealdade ao governo soviético. Quando Stálin morreu, Kruschev e muitos líderes do Partido viram que poderiam jogar a culpa por essas grandes repressões em cima de Stálin. Eles também inventaram muitas outras mentiras escancaradas sobre Stálin, Lavrentii Béria e pessoas próximas aos dois. Quando, bem mais tarde (1985), [Mikhail] Gorbachev assumiu o poder, ele também percebeu que as suas “reformas” capitalistas – o distanciamento do socialismo em direção a relações capitalistas de mercado– poderiam ser justificadas se sua campanha anticomunista fosse descrita como uma tentativa de “corrigir os crimes de Stálin”. Essas mentiras e histórias de horror permanecem como a principal forma de propaganda anticomunista, hoje, no mundo. A tendência é que elas se intensifiquem, pois os capitalistas estão diminuindo os salários e retirando benefícios sociais dos trabalhadores, caminhando em direção a um exacerbado nacionalismo, ao racismo e à guerra.

A Verdade – O que o levou a se interessar pela história da URSS?
Grover Furr – Quando estava na faculdade, de 1965 a 1969, eu fazia protestos contra a guerra dos EUA no Vietnã. Um dia, alguém me disse que os comunistas vietnamitas não poderiam ser “caras legais” porque eram todos “stalinistas”, e “Stálin tinha matado milhões de pessoas inocentes”. Isso ficou na minha cabeça. Foi provavelmente por isso que, no início da década de 1970, li a primeira edição do livro O grande terror, de Robert Conquest. Fiquei impressionado quando o li! Mas eu já tinha um certo domínio do russo e podia ler neste idioma, pois já vinha estudando literatura russa desde o ensino médio. Então examinei o livro de Robert Conquest com muito cuidado. Aparentemente ninguém ainda havia feito isso! Descobri, então, que Conquest fora desonesto no uso de suas fontes. Suas notas de rodapé não davam suporte a nenhuma de suas conclusões “anti-Stálin”. Ele basicamente fez uso de qualquer fonte que fosse hostil a Stálin, independentemente de se era confiável ou não. Decidi, então, escrever alguma coisa sobre o “grande terror”. Demorou um longo tempo, mas finalmente foi publicado em 1988. Durante este tempo estudei as pesquisas que estavam sendo feitas por novos historiadores da URSS, entre os quais Arch Getty, Robert Thurston e vários outros.

A Verdade – Seu livro Antistalinskaia Podlost (“A infâmia anti-stalinista”) foi recentemente publicado em Moscou. Conte um pouco sobre ele.
Grover Furr – Há aproximadamente uma década fiquei sabendo da grande quantidade de documentos que estavam sendo revelados dos antigos arquivos secretos soviéticos, e comecei a estudá-los. Li em algum lugar que uma ou duas das declarações de Kruschev em sua famosa “fala secreta”, de 1956, foram identificadas como falsas do início ao fim. Daí, pensei que poderia fazer algumas pesquisas e escrever um artigo apontando alguns outros erros de seu pronunciamento da “sessão secreta”. Nunca esperei descobrir que tudo o que Kruschev disse – 60 de 61 acusações que ele fez contra Stálin e Béria – eram comprovadamente falsas (não pude encontrar nada que comprovasse a 61ª)! Percebi que este fato mudava tudo, uma vez que praticamente toda a “história” anticomunista desde 1956 se baseia ou em Kruschev ou em escritores de sua época. Verifiquei que a história soviética do período de Stálin que todos aprendemos era completamente falsa. Não apenas “um erro aqui e outro ali”, mas fundamentalmente uma fraude gigantesca, a maior fraude histórica do século! E meus agradecimentos ao colega de Moscou Vladimir L. Bobrov, que foi o primeiro a me mostrar esses documentos, me deu inestimáveis conselhos, várias vezes, e fez um excelente trabalho de tradução de todo o livro. Sem o dedicado trabalho de Vladimir, nada disso teria acontecido.

A Verdade – Em suas pesquisas o senhor teve acesso direto a arquivos soviéticos abertos recentemente.  O que esses documentos revelam sobre os “milhões de mortos” sob o socialismo, especificamente no período de Stálin?
Grover Furr – Considerando que pessoas morrem a todo instante, eu suponho que você esteja falando de mortes “excedentes”. A Rússia e a Ucrânia sempre experimentaram fomes a cada três, quatro anos. A fome de 1932-33 ocorreu durante a coletivização. Sem dúvida, que um número maior de pessoas morreu do que teria morrido naturalmente. No entanto, muito mais pessoas iriam morrer em sucessivas fomes – a cada três, quatro anos, indefinidamente, no futuro – se não fosse feita a coletivização. A coletivização significou que a fome de 1932-33 foi a última, com exceção da grave fome de 1946-1947, que foi muito pior, mas isso devido à guerra. E, como mencionei anteriormente, Nikolai Ezhov deliberadamente matou milhares de pessoas inocentes. É interessante considerar o que poderia ter sucedido se a URSS não houvesse coletivizado a agricultura e não tivesse acelerado seu programa de industrialização, e se as conspirações da oposição nos anos 1930 não tivessem sido esmagadas. Se a URSS não tivesse feito a coletivização, os nazistas e os japoneses a teriam conquistado. Se o governo de Stálin não houvesse contido as conspirações direitistas, trotskistas, nacionalistas e militares, os japoneses e os alemães teriam conquistado o país. Em qualquer um desses casos, as vítimas entre os cidadãos soviéticos teriam sido muito, muito mais numerosas do que os 28 milhões mortos na guerra. Os nazistas teriam matado muito mais  eslavos ou  judeus do que mataram. Com os recursos, e talvez até mesmo com os exércitos da URSS do seu lado, os nazistas teriam sido muito, muito mais fortes contra a Inglaterra, a França e os EUA. Com os recursos soviéticos e o petróleo de Sakhalin, os japoneses teriam matado muito, muito mais americanos do que fizeram. O fato é que a URSS sob Stálin salvou o mundo do fascismo não apenas uma vez, durante a guerra, mas três vezes: pela coletivização; pelo desbaratamento das oposições direitista-trotskista-militares e também na guerra. Quantos milhões isso dá?

A Verdade – Alguns autores vêm tentando encontrar semelhanças entre Stálin e Hitler, e alguns até chegam a afirmar que o suposto “stalinismo” foi “pior” que o nazismo. Existia realmente alguma ligação entre Stálin e Hitler? 
Grover Furr – Os anticomunistas e os pró-capitalistas não discutem a luta de classes e a exploração. De fato, eles ou fingem que essas coisas não existem ou que não são importantes. Mas a luta de classes causada pela exploração é o motor da história. Então omitir isso significa falsificar a história. Hitler era um capitalista, um anticomunista autoritário de um tipo que é comum em vários países capitalistas. Stálin liderou o Partido Bolchevique e a URSS quando os comunistas em todo o mundo estavam lutando contra todo tipo de exploração capitalista. Sempre que dizemos “pior”, devemos sempre nos perguntar: “Pior para quem?” A URSS e o movimento comunista durante o período de Stálin foram definitivamente “piores que o nazismo”, para os capitalistas. Essa é a razão de os capitalistas odiarem tanto Stálin e o comunismo. O movimento comunista durante o período de Lênin e Stálin, e ainda por um bom tempo depois, foi a maior força de libertação humana da história. E novamente devemos nos perguntar: “Libertação de quem? Libertação do quê?” A resposta é: libertação da classe trabalhadora de todo o mundo, da exploração capitalista, da miséria e das guerras.

A Verdade – Um dos ataques mais frequentes a Stálin é que ele seria responsável pela fome na Ucrânia, em 1932-1933, também chamada de Holodomor. Esta versão da história corresponde ao que realmente ocorreu?
Grover Furr – O “Holodomor” é um mito. Nunca aconteceu. Esse mito foi inventado por ucranianos nacionalistas pró-fascistas, junto com os nazistas. Douglas Tottle comprovou isso em seu livro Fraud, Famine and Fascism(1988). Arch Getty, um dos melhores historiadores burgueses (isso é, não marxistas, não comunistas), também tem um bom artigo sobre isso. Até o próprio Robert Conquest deixou de defender sua antiga versão de que os soviéticos deliberadamente causaram a fome na Ucrânia. Nenhuma sombra de prova que poderia confirmar essa visão jamais veio à luz. O mito do “Holodomor” persiste porque ele é o “mito fundacional” do nacionalismo direitista ucraniano. Os nacionalistas ucranianos que invadiram a URSS juntamente com os nazistas mataram milhões de pessoas, incluindo muitos ucranianos. Sua única “desculpa” é propagandear a mentira de que eles “lutaram pela liberdade” contra os comunistas soviéticos, que eram “piores”.

A Verdade – Deixe uma mensagem para os trabalhadores brasileiros.
Grover Furr – Lutem pelo comunismo! Todo o poder à classe trabalhadora de todo o mundo!

http://averdade.org.br/2011/09/acusacoes-de-kruschev-contra-stalin-sao-falsas/

domingo, 13 de agosto de 2017

Por que o nazismo era de direita

Neonazistas em Charlottesville, EUA

Por Bertone Sousa
A confusão que se faz em relação ao nazismo e aos conceitos de direita e esquerda ainda produz muita desinformação na internet. Recentemente, um importante site de notícias veiculou uma matéria questionando se o nazismo era de esquerda ou direita. Entre os vários especialistas entrevistados não houve consenso sobre o assunto, embora ninguém tenha apontado o regime como “de esquerda”. A falta de consenso se deveu ao fato de uma professora explicar o nazismo como “terceira via”, uma alternativa ao socialismo e ao liberalismo. Isso é verdade, mas é preciso dar nome aos bois: nos anos 1920 e 1930 o que se pode chamar de terceira via era a extrema-direita.
Embora eu já tenha publicado em blog e numa revista acadêmica um artigo de cerca de vinte páginas sobre o tema, vou sumariar neste texto as razões pelas quais o nazismo era uma ideologia de direita:
Não faz sentido definir esquerda e direita pela intervenção do Estado na economia, como costumam fazer aqueles que jogam o nazismo para a esquerda. Esquerda e direita não se definem pelo tamanho do Estado, mas por suas posições sobre as hierarquias sociais e a desigualdade.
A esquerda historicamente luta pela igualdade, a universalização de direitos, a inclusão social e contra hierarquias baseadas em privilégios de nascimento ou do dinheiro.
A direita se define por sua posição a favor das hierarquias; ela é conservadora e não quer mudanças radicais que alterem a ordem social. O nazismo se enquadra aqui porque o nazismo surgiu para manter hierarquias sociais, os privilégios da plutocracia econômica e contra as minorias.
Frente à derrocada do capitalismo liberal após a crise de 1929, o nazismo veio com o capitalismo de Estado para fazer frente ao socialismo soviético e preservar a propriedade privada. O termo “capitalismo de Estado” foi criado para definir essa experiência, ou seja, uma economia regida por um Estado totalitário associado a grupos de empresários e industriais e com imposição de forte disciplina militar sobre as massas.
O partido de Hitler se chamava “Partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães”, mas é importante observar que o “nacional-“ vem antes de “socialista” porque é o termo que define a ideologia nazista, ou seja, seu princípio norteador vem do nacionalismo, da crença na superioridade da raça germânica e da necessidade da conquista do espaço vital.
Hitler planejava, após a Segunda Guerra, transformar os povos eslavos do leste europeu em colônias de escravos da Alemanha; eles forneceriam a mão de obra e o trabalho que perpetuariam a grandeza alemã. Por outro lado, o nacionalismo tem raízes conservadoras, apela à tradição, a Deus e ao passado para restaurar ou manter uma ordem social. Com isso, o nacionalismo rejeita os valores da esquerda de universalização de direitos e igualdade.
Paralelamente a isso, o nazismo está relacionado às teorias raciais do século 19, ou seja, foi uma ideologia que exacerbou o darwinismo social e a ênfase no imperialismo, de onde provinha a noção de “comunidade nacional” pensada para exterminar o elemento judeu e marxista (Hitler chamava de “marxista” praticamente toda a esquerda política). O desenvolvimento da Biologia forneceu a fundamentação para as teorias voltadas para a definição de raças melhores ou superiores e o antissemitismo também se tornou um sentimento cada vez mais cultivado até entre intelectuais entusiastas dessas teorias.
Hitler não inventou a noção de uma oposição cruenta entre arianos e judeus, ele aprendeu isso com Houston Stewart Chamberlain. Em Mein Kampf, Hitler sempre enfatiza o racismo como base de seu pensamento.
A propaganda era o carro-chefe do nazismo para obter apoio das massas. Hitler deixou claro em Mein Kampf que era necessário confundir os adversários, copiando suas estratégias de luta ideológica e de ação. O período entre-guerras é conhecido como a era das massas. A ascensão das ideologias coletivistas e do rádio como meio de comunicação deram o tom a uma época marcada pelo extremismo. Nesse sentido, usar a cor vermelha e até o nome socialismo como forma de atrair o apoio das massas fazia parte da estratégia adotada por Hitler em sua escalada ao poder.
Nazismo e socialismo não podem ser nivelados pela quantidade de vítimas que fizeram, mas por seus objetivos finais: enquanto o extermínio das “raças inferiores” era o objetivo último do nazismo, a sociedade sem classes e sem hierarquias de qualquer teor (racial, econômica, nacional, etc.) era o fim último do socialismo. Hitler e seus seguidores tinham aversão por todos os movimentos de esquerda. Ainda em 1930, mais de vinte militantes socialistas abandonaram o Partido Nazista quando perceberam que os ideais do socialismo não tinham lugar ali.
O nazismo era uma ideologia voltada para a exclusão, a perseguição e o extermínio; representou a negação mais radical dos valores do Iluminismo (do qual o marxismo e as esquerdas são herdeiros) e nada poderia estar mais à direita do que isso.
Para o leitor que quiser uma leitura mais aprofundada, com referências teóricas e discussão historiográfica, recomendo meu artigo Nazismo, socialismo e as políticas de esquerda e direita na primeira metade do século XX, publicado na Revista Brasileira de História & Ciências sociais.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Nova Direita

"É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [“Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.
O trabalho da professora de História começou por acidente. Em 2013, ela deparou-se com uma casa de madeira abandonada no campus da Universidade George Mason, em Virgínia (EUA). O lugar estava repleto com os arquivos desorganizados de um homem que havia morrido naquele ano, e cujo nome é provavelmente pouco familiar a você: James McGill Buchanan. Ela conta que a primeira coisa que despertou sua atenção foi uma pilha de cartas confidenciais relativas a milhões de dólares transferidos para a universidade pelo bilionário Charles Koch.
Suas descobertas naquela casa de horrores revelam como Buchanan desenvolveu, em colaboração com magnatas e os institutos fundados por eles, um programa oculto para suprimir a democracia em favor dos muito ricos. Tal programa está agora redefinindo a política, e não apenas nos Estados Unidos.
Buchanan foi fortemente influenciado pelo neoliberalismo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises e pelo supremacismo de proprietários de John C Carlhoun. Este último argumentava, na primeira metade do século XIX, que a liberdade consiste no direito absoluto de usar a propriedade – inclusive os escravos – segundo o desejo de cada um. Qualquer instituição que limitasse este direito era, para ele, um agente de opressão, que oprime homens proprietários em nome das massas desqualificadas.
James Buchanan reuniu estas influências para criar o que chamou de “teoria da escolha pública. Argumentou que uma sociedade não poderia ser considerada livre exceto se cada cidadão tivesse o direito de vetar suas decisões. Queria dizer que ninguém deveria ser tributado contra sua vontade. Mas os ricos, dizia ele, estavam sendo explorados por gente que usa o voto para reivindicar o dinheiro que outros ganharam, por meio de impostos involuntários usados para assegurar o gasto e o bem-estar social. Permitir que os trabalhadores formassem sindicatos e estabelecer tributos progressivos eram, sempre segundo sua teoria, formas de “legislação diferencial e discriminatória” sobre os proprietários do capital.
Qualquer conflito entre o que ele chamava de “liberdade” (permitir aos ricos fazer o que quiserem) e a democracia deveria ser resolvido em favor da “liberdade”. Em seu livro The Limits of Liberty [“Os limites da liberdade”], ele frisou que “o despotismo pode ser ser a única alternativa para a estrutura política que temos”. O despotismo em defesa da liberdade…
Ele prescrevia o que chamou de uma “revolução constitucional”: criar barreiras irrevogáveis para reduzir a escolha democrática. Patrocinado durante toda sua vida por fundações riquíssimas, bilionários e corporações, ele desenvolveu uma noção teórica sobre o que esta revolução constitucional seria e uma estratégia para implementá-la.
Ele descreveu como as tentativas de superar a segregação racial no sistema escolar do sul dos Estados Unidos poderiam ser frustradas com o estabelecimento de uma rede de escolas privadas, patrocinadas pelo Estado. Foi ele quem primeiro propôs a privatização das universidades e cobrança de mensalidades sem nenhum subsídio estatal: seu propósito original era esmagar o ativismo estudantil. Ele recomendou a privatização da Seguridade Social e de muitas outras ações do Estado. Queria romper os laços entre os cidadãos e o governo e demolir a confiança nas instituições públicas. Ele queria, em síntese, salvar o capitalismo da democracia.
Em 1980, pôde colocar este programa em prática. Foi chamado ao Chile, onde ajudou a ditadura Pinochet a escrever uma nova Constituição – a qual, em parte devido aos dispositivos que Buchanan propôs, tornou-se quase impossível de revogar. Em meio às torturas e assassinados, ele aconselhou o governo a ampliar seus programas de privatazação, austeridade, restrição monetária, desregulamentação e destruição dos sindicatos: um pacote que ajudou a produzir o colapso econômico de 1982.
Nada disso perturbou a Academia Sueca que, por meio de Assar Lindbeck, um devoto na Universidade de Estocolomo, conferiu a James Buchanan o Nobel de Economia de 1986. Foi uma das diversas decisões que tornaram duvidosa a honraria.
Mas seu poder realmente intensificou-se quando Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.
Nancy MacLean afirma que Charles Koch despejou milhões de dólares no trabalho de Buchanan na Universidade George Mason, cujos departamentos de Direito e Economia parecem muito mais thinktanks corporativos que instituições acadêmicas. Ele encarregou o economista de selecionar o “quadro” revolucionário que implementaria seu programa (Murray Rothbard, do Cato Institute, fundado por Koch, havia sugerido ao bilionário estudar as técnicas de Lenin e aplicá-las em favor da causa ultraliberal). Juntos, começaram a desenvolver um programa para mudar as regras.
Os documentos que Nancy Maclean descobriu mostram que Buchanan via o sigilo como crucial. Ele afirmava a seus colaboradores que “o sigilo conspirativo é essencial em todos os momentos”. Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de “reformas” radicais. Aos poucos, construiriam uma “contra-inteligência”, articulada como uma “vasta rede de poder político” para, ao final, constituir um novo establishment.
Por meio da rede de thinktanks financiada por Koch e outros bilionários; da transformação do Partido Republicano; de centenas de milhões de dólares que destinaram a disputas legislativas e judiciais; da colonização maciça do governo Trump por membros de sua rede e de campanhas muito efetivas contra tudo – da Saúde pública às ações para enfrentar a mudança climática, seria justo dizer que a visão de mundo de Buchanan está aflorando nos EUA."

domingo, 16 de julho de 2017

A Ficção do Cristão

Por Daniel Sottomaior.

Em artigo publicado neste site no dia 1 de julho, o seminarista Salathiel de Souza lançou uma de suas várias diatribes contra os ateus, intitulada “A má vontade do ateu”. A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que represento, agradece ao domínio por ter gentilmente concedido espaço para exercer o direito de resposta.

Entre os contos de Hans Christian Andersen, um dos meus favoritos é “A roupa nova do rei”, em que um rei é convencido de que poderia ter uma roupa muito bonita e cara, mas que só as pessoas mais inteligentes poderiam ver. O costureiro recebe baús cheios de riquezas, rolos de linhas de ouro e seda e todos os materiais mais caros e exóticos para realizar sua empreitada, e ao fim mostra ao rei um cabide vazio dizendo que essa era a sua obra. Mesmo sem ver obra nenhuma, ele exclama "Que lindas vestes! Fizeste um trabalho magnífico!" - afinal de contas, se ele dissesse a verdade, admitiria que não era inteligente o suficiente para enxergar a roupa.

Sem desejo de contrariar o rei ou movidos pelo mesmo medo de serem vistos como pouco inteligentes, os nobres à sua volta davam todos falsos suspiros de admiração pela beleza das vestes. Até um desfile foi marcado para que todos pudessem apreciar o esplendor da roupa nova do rei, quando uma criança apontou “O rei está nu!”

O ateu na sociedade é essa criança, que não tem medo de dizer que o não existente não existe. E se eu fosse o costureiro da roupa nova do rei, a impertinência daqueles que apontam que o rei está nu possivelmente também me deixaria raivoso. Talvez eu até dissesse que elas têm “má vontade” em não ver quão esplendoroso é o manto real. Afinal de contas, não é apenas uma questão intelectual.

Os costureiros das obras religiosas dependem da ilusão, própria e alheia, para exercer seu enorme poder sobre a sociedade, ditando quem pode fazer o quê, como, quando e onde, direcionando não só a vida íntima de milhões de pessoas como até a formulação de leis e políticas públicas. Além disso, quem paga as contas dos costureiros de roupas do rei são aqueles que juram que ela existe. Sem esses inocentes úteis, eles teriam que trabalhar de verdade. Follow the money.

Em seu texto, Salathiel alega que só se é ateu por ignorância, covardia ou má vontade e que “é raríssimo e digno de nota encontrar um ateu com boa vontade, realmente tolerante, respeitoso e em paz.” A regra do jogo na religião é afirmar e ser levado a sério sem ter qualquer evidência, e este caso não é exceção. Que pesquisas teria o seminarista consultado? Obviamente nenhuma.

Nosso país tem apenas 1 ou 2% de ateus, bem menos que a média mundial. Mas isso significa que apenas no estado em que vivemos, há 450 a 900 mil ateus. O seminarista teria que empreender enorme esforço para encontrar e então investigar as características de um milésimo desses ateus, mas nada disso é necessário se ele pode simplesmente inventar suas verdades, como tantos religiosos antes dele já fizeram. Fiat veritas! Faça-se a verdade, disse ele, e a verdade foi feita. Felizmente alguns poucos de nós têm pudor em mentir e sentem obrigação moral em expor as mentiras alheias. A afirmação é uma mera fabricação, de caráter não apenas difamatório, mas preconceituoso.

Diversas pesquisas apontam que os ateus são as pessoas mais detestadas do país, e em muito outros lugares também. Um levantamento da Fundação Perseu Abramo, por exemplo, mostrou que 17% dos brasileiros sentem repulsa ou ódio por ateus - empatados com usuários de drogas e bem à frente de ex-presidiários, com apenas 5%. O sentimento de antipatia também é dedicado mais a ateus que a qualquer outro grupo pesquisado: 25% dos brasileiros nutrem esse sentimento pelos descrentes, totalizando uma rejeição de 42%.Os meninos que insistem em dizer que o rei está nu não precisam fazer nada para serem odiados.

Mas isso é coisa que acontece mais tipicamente no terceiro mundo. A Inglaterra possui 25% de ateus; a França, 40%; Alemanha e Bélgica têm 27%. Segundo o nobre seminarista, parece que o primeiro mundo é coalhado de pessoas que não tem boa vontade, intolerantes e desrespeitosas. Deve ser um inferno a Europa! Bom mesmo é o Brasil e suas prisões, cheias até a borda de cristãos.

É para lutar contra esses estereótipos odiosos e em favor da laicidade do Estado que existe a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Nossos cerca de vinte mil membros espalhados em todo o país estão ansiosos por ver um futuro melhor para o país nessas frentes. Obviamente, ainda temos muito trabalho a ser feito.

Daniel Sottomaior é presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA).
http://www.itu.com.br/opiniao/noticia/a-ficcao-do-cristao-20170711

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A teoria do cidadão de bem armado foi derrubada

Por Alex Yablon

Ao reunir dados de 37 anos de pesquisas, uma equipe norte-americana explica por que o porte de arma contribui para o aumento de crimes


Uma aula para obter o porte de arma em Utah em 9 de janeiro de 2016, Springville

Nas quatro décadas do movimento moderno de direito a armas, uma de suas vitórias mais significativas não aconteceu nas urnas, na mesa do presidente ou nos tribunais. Uma das maiores batalhas vencidas pelos ativistas pró-armas aconteceu na mente de milhões de norte-americanos — e outros povos influenciados por eles.
Desde o final dos anos 70, a Associação Nacional de Rifles (NRA em inglês) e outros defensores das armas de fogo conseguiram tornar a autodefesa armada cada vez mais aceitável no dia a dia. Uma riqueza de dados de pesquisa — que veio à tona graças a uma grande pesquisa do Pew no mês passado — mostra que os norte-americanos se tornaram cada vez mais confortáveis com o porte de armas em público. Defesa pessoal é a razão mais citada pelos donos de armas, que tronaram pistolas o tipo de arma de fogo mais popular do arsenal dos EUA. Essas atitudes e comportamentos marcam uma grande guinada: no meio dos anos 90, os norte-americanos tinham armas principalmente para recreação, e em 2005, grande parte do público achava que apenas policiais deviam carregar armas em público.
No centro dessa campanha pelos corações, mentes e coldres nos EUA está um artigo de fé que a NRA e seus aliados pregam desde os anos 90: que as pessoas podem aumentar a segurança pública carregando armas para se defender. O economista John Lott desenvolveu a teoria "Mais Armas, Menos Crime" em seu livro de 1998 de mesmo nome, e tem popularizado a ideia através de testemunhos legislativos e artigos de opinião. A NRA tem empregado o trabalho de Lott para contrariar pedidos de contenção do porte de armas. Depois do atentado na Escola Fundamental Sandy Hook, quando o líder do NRA Wayne LaPierre fez seu infame comentário de que "o único jeito de parar um bandido com uma arma é ter um cidadão de bem com uma arma", ele estava mencionando a noção já enraizada de que armas ao alcance da mão de seu proprietário aumentam a segurança pública.
É uma ideia poderosa e sedutora, particularmente nos EUA, que favorece a tal liberdade individual sobre ideais comunitários. E também está totalmente errada, segundo uma nova análise de quase 40 anos de dados de crime.
Num novo trabalho publicado em 21 de junho pela National Bureau of Economic Research, acadêmicos da Stanford Law School analisaram dados de quatro modelos estatísticos diferentes — incluindo um desenvolvido por Lott no livroMore Guns, Less Crime — e chegaram a uma conclusão sem ambiguidades: estados norte-americanos que facilitam o acesso de armas a seus cidadãos têm níveis mais altos de crimes violentos não fatais do que estados que restringem o porte de armas. A exceção, na pesquisa, aparecia na categoria de assassinato; ali, os pesquisadores determinaram que qualquer efeito nas taxas de homicídio por políticas expandidas de porte de armas são estatisticamente insignificantes.
Outros estudos conduzidos desde 1994 minavam a tese de Lott, mas essa nova pesquisa é mais abrangente e assertiva ao derrubar a fórmula do "mais armas, menos crime".
"Por anos, a pergunta foi: há algum benefício de segurança pública no direito de carregar armas? E isso agora está claro", disse o líder do estudo, John Donohue. "A resposta é não."
Donohue e os coautores do estudo observaram dados de crimes nos EUA entre os anos 1977 a 2014, nos 33 estados que implementaram a "Shall Issue" — dispositivo legal que permite o porte de armas durante o período citado. Os estatutos "Shall Issue" são trabalho da NRA, que fez lobbie com políticos em vários capitólios para relaxar seus requisitos em relação ao porte de armas. Os estados da "Shall Issue", a que Donohue se refere como right to carry (RTC), exigem que porte de armas seja garantido a qualquer pessoa que cumpra os critérios básicos. Sem surpresa, esses estados permitem inscrições em taxas maiores que estados "May Issue", onde as autoridades têm mais discrição em decidir quem pode sair pelo mundo portando uma arma.
Já que diminuir os critérios para porte de armas foi levando mais gente a pedir o porte (só a Flórida, há quase 1,8 milhão de pessoas com porte de armas, e na Pensilvânia e Texas há cerca de um milhão de pessoas em cada estado), e como mais armas em público deveriam reduzir a criminalidade, era esperado que esses estados vissem menos crimes desde que a "Shall Issue" entrou em vigor.
A equipe de Stanford, no entanto, descobriu exatamente o oposto: "Dez anos depois da adoção das leis de RTC", eles escreveram, "crimes violentos são de 13 a 15% mais altos do que seriam sem essas leis".
Avaliações anteriores dos estatutos de porte vieram logo que ondas de leis "Shall Issue" varreram os EUA nos anos 80 e começo dos 90. Uma delas foi um relatório bem conhecido de 2004 do National Research Council, que também mostrava furos na conclusão de Lott — mas que não podia dizer definitivamente que o porte de armas aumentava as taxas de crimes, porque não havia anos suficientes de dados para peneirar. Como a equipe de Stanford pôde observar, em estados com direito expandido de porte de armas por uma década ou mais, a pesquisa chegou a estimativas muito mais fortes sobre os efeitos das leis "Shall Issue" no crime.
Em sua pesquisa, a equipe de Stanford sugere que o aumento do porte de armas contribui para o aumento dos crimes de várias maneiras. Enquanto cidadãos de bem se armavam, criminosos nas mesmas comunidades também conseguiam mais armas. Pessoas armadas obedientes à lei, teorizaram os pesquisadores, podem contribuir com uma corrida armamentista nas ruas para trazer mais armas ao público, num ambiente em que essas armas têm mais chances de serem perdidas ou roubadas, alimentando assim o mercado informal. Quanto mais as pessoas se conscientizam de que seu ambiente está se enchendo de armas, mais sua percepção da sociedade se colore de medo e raiva, as levando a uma predisposição à violência.
"Não fiquei surpreso em ver crimes violentos aumentando", disse Donohue. "Já era de se esperar que armas contribuíssem com crimes violentos."
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As descobertas de Stanford vão direto na jugular não apenas da mensagem da NRA, mas do entendimento comum sobre tendências de crime disseminadas nas últimas duas décadas. Pelas medições nacionais, os crimes violentos caíram dramaticamente depois de um pico no começo dos anos 90, e a queda coincidiu amplamente com a expansão do direito de carregar armas de fogo. Lott e outros estava ansiosos para apontar o declínio no crime nacional como evidência de sua teoria, ou, pelo menos, distrair das preocupações de que mais armas em público poderiam levar a um banho de sangue generalizado.
O problema na conexão do aumento do porte de armas e a queda na taxa nacional de crimes, como Donohue e seus coautores apontam, é que o crime não caiu igualmente em todas as partes do país. Em vez disso, o declínio nos crimes violentos foi mais pronunciado em estados que mantiveram um controle rígido sobre o porte, como Nova York e Califórnia. Quando outros estados decidiram facilitar que seus residentes carregassem armas, eles parecem ter perdido uma redução no crime na mesma magnitude. Em termos crus, o crime também declinou naqueles estados RTC — mas nem perto de quanto poderia ter caído. Examinando estatísticas do Censo Norte-Americano e do FBI, os autores estimam que estados com leis mais severas para porte viram o crime cair em 42% entre 1977 a 2014. A queda é quatro vezes maior que os 9% vistos nos estados com RTC.
Ao reunir essas análises, os pesquisadores de Stanford queriam garantir que era a diferença entre leis de porte de arma, não outro fator — economias divergentes ou contingente policial, por exemplo — fez o crime despencar em alguns lugares mais que em outros. Para descobrir, a equipe projetou o que teria acontecido em estados RTC se eles não tivessem relaxado suas exigências para o porte, considerando diferenças em demografia, policiamento e crescimento econômico.
Aqui também a equipe pôde rodar cálculos que eram impossíveis em 90 e no meio dos anos 2000, quando os estudiosos que inicialmente contrariaram a teoria de Lott tinham muitos menos dados para processar.
As descobertas de Stanford se baseiam em dois métodos estatísticos com nomes técnico que parecem obscuros: análise de dados em painel e análise de controles sintéticos. Dados em painel tentam desmontar fenômenos sociais complexos — como o crime — estudando seus componentes menores e mais fáceis de medir, como taxas de encarceramento, níveis de contingente policial, pobreza, renda e densidade populacional.
A análise de controles sintéticos permite que os pesquisadores comparem dados registrados depois da introdução de uma mudança — como as leis de porte de armas — com projeções baseadas no que teria acontecido se a mudança nunca tivesse ocorrido. As projeções de controles sintéticos são baseadas em dados demográficos e resultados em locais com demografia similar.
Diferentes pesquisadores fizeram julgamentos distintos sobre quais fatores tinham mais poder de fazer o crime subir ou cair. Em vez de basear sua análise em um grupo de variáveis, a equipe de Stanford cobriu 37 anos de dados de crimes dispostos em quatro painéis: o favorito deles, chamado DAW; um desenvolvido pelo Brennan Center; o painel usado por John Lott em More Guns, Less Crime, e um quarto favorecido por dois pesquisadores pró-armas chamados Charlisle Moody e Thomas Marvel.
Projeções feitas com esses quatro painéis mostraram que estados RTC teriam quedas ainda maiores nos crimes violentos se não tivessem afrouxado suas leis de porte de armas. "Os dados do painel não deram nenhuma dica de que algo bom estava vindo do direito de porte", disse Donohue.
Como no Texas, por exemplo. As projeções de Donohue descobriram que dez anos depois que o Estado da Estrela Solitária colocou seu RTC em vigor, os crimes violentos aumentaram em 16% do que seriam sem a lei, como mostra o gráfico abaixo. A linha pontilhada, rotulada "unidade de controle sintético", é uma projeção do que poderia ter acontecido com as taxas de crimes violentos no Texas se o estado não tivesse afrouxado seu estatuto de porte, baseado numa composição de estados de demografia similar.
A única diferença entre as projeções usadas pelos estudiosos pró-armas e os outros dois painéis veio ao destacar as taxas de assassinatos. O principal propósito de cidadãos armados, na ideia da NRA e vendedores de armas, é incapacitar psicopatas antes que eles tirem vidas inocentes. Mas quando a equipe de Stanford rodou as fórmulas dos pesquisadores pró-armas, os gráficos mostraram que o RTC na verdade impulsionava as taxas de homicídio.
Os painéis DAW e do Brennan Center, por outro lado, mostraram que apenas violência não fatal seria mais baixa se os estados nunca tivessem optado pela rota do "Shall Issue". E mostraram isso em todos os 33 estados onde rodaram a simulação, sem exceções.
Mas uma pesquisa melhor realmente significa um resultado melhor no mundo real?
Para essa questão, Donohue se baseia não em matemática sofisticada, mas em anos de experiência estudando a questão das armas. "Muita gente tem ideias fixas sobre armas", ele disse. "É difícil influenciar seu pensamento."
Donohue pode estar entendendo o desafio que eles e outros estudiosos enfrentam agora. Pesquisas sociológicas e antropológicas sugerem que o sentimento dos EUA em relação a armas de fogo e porte para defesa pessoal se baseiam em noções elementares como identidade e masculinidade, não em medidas empíricas de segurança conquistada ou perdida.
A NRA foi longe para fomentar a ideia de que o direito de carregar armas é a base da cidadania norte-americana, e que a opção de autodefesa letal é "a primeira liberdade". Empresas de armas vendem seus produtos para tocar a necessidade de o consumidor de se sentir um protetor poderoso e, muitas vezes, hipermasculino. É difícil para um estudo acadêmico derrubar crenças assim.
Ainda assim, legisladores e juízes são um tipo diferente de público que compradores de armas ou eleitores. Donohue espera que suas descobertas cheguem a esses olhos influentes.
"A Suprema Corte vai ter que acabar decidindo se há mesmo um direito ao porte de arma", ele disse, falando um dia depois que juízes se recusaram a ouvir um desafio às leis de porte de armas restritivas na Califórnia. "O que eles vão fazer com essas evidências?"
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