domingo, 27 de março de 2016

COMO O JORNAL NACIONAL TRATARÁ A LAVA JATO CASO O GOLPE TRIUNFE

Por Paulo Nogueira
Em suas memórias, Samuel Wainer notou o óbvio: os analfabetos políticos, ou perfeitos idiotas, acham que o que veem nos jornais, revistas e telejornais é verdade.
Em sua ingenuidade desumana, eles não imaginam que por trás do que é noticiado estejam famílias riquíssimas dedicadas a preservar seus próprios interesses, Marinhos, Frias, Civitas e por aí vai.
Tais famílias escolhem, com capricho criminoso, o que vai chegar a seu público, e como. Com o mesmo apuro, decidem também o que não vai chegar.
Mas o analfabeto político não pensa nisso. Com o mesmo fervor obtuso, ele crê que decisões de juízes são sagradas. Se ele atinasse que um juiz da Suprema Corte – como Gilmar, Toffoli etc – podem ser tão tendenciosos quanto um juiz de futebol vinculado a um time, seria mais crítico. Mas não é o que acontece.
Vamos agora fazer um exercício.
Na hipótese extrema de que o golpe funcione: como a Globo vai passar a noticiar a Lava Jato para os analfabetos políticos que ainda a levam a sério?
Vai tirar do ar. A Lava Jato deixará de ocupar intermináveis minutos no Jornal Nacional, na Globonews e demais telejornais da casa porque já terá cumprido seu objetivo. Moeo será abandonado como Joaquim Barbosa, ou caso seja o candidato a presidente da Globo, artificialmente inflado.
Corrupção, igualmente, não será mais tema de reportagens.
Quem, como eu, militou demorados anos em grandes empresas jornalísticas como Globo e Abril sabe como elas agem na defesa de suas mamatas e privilégios.
O general Medici, um dos presidentes da ditadura, teve uma reflexão histórica sobre o Jornal Nacional de seu tempo. “Você vê o mundo em chamas e ao assistir o Jornal Nacional depara com um paraíso”, disse ele.
Jovens idealistas morriam torturados nas masmorras da ditadura que a Globo ajudara a construir e manter. Direitos trabalhistas como a estabilidade eram roubados sem que os trabalhadores pudessem fazer nada porque greves eram proibidas e líderes sindicais perseguidos. Políticos destemidos eram cassados. A corrupção grassava por baixo do pano em civis como Paulo Maluf.
Mas o que aparecia no JN era um paraíso. De mentirinha.
É isso, este circo sinistro, que teremos de volta caso o golpe vença.
Eduardos Cunhas continuarão a ter a vida mansa que sempre tiveram, porque ao mesmo tempo em que roubarão prestarão serviços sujos à Globo: farão aprovar medidas contra os trabalhadores e impedirão que sequer se discuta uma regulamentação da mídia que impeça a empresa dos Marinhos de ser o monstro manipulador que é.
O país, como na ditadura militar, se encherá de confrontos porque os movimentos sociais e jovens estudantes como os secundaristas de São Paulo não aceitarão passivamente um crime de lesademocracia.
Sangue fatalmente correrá, graças aos métodos conhecidos da Polícia Federal, mas também isso não será notícia.
A Globo, acossada pela Era Digital que a fará em circunstâncias normais uma empresa em grossa decadência, terá mais uma vez livre acesso aos cofres públicos, por meio de publicidade e financiamentos indecentes.
Terá cada vez menos público, porque isso é inexorável, mas os Marinhos serão cada vez mais ricos num país cada vez mais desigual.
Mas o JN, como no tempo de Medici, trará a seus analfabetos políticos um paraíso. De mentirinha. Mas, em sua ignorância majestosa, é disso mesmo que eles gostam, um mundo falso em que só haja brancos, ricos, cheirosos, sorridentes — em suma, perfeitos idiotas como eles mesmos.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-o-jornal-nacional-tratara-a-lava-jato-caso-o-golpe-triunfe-por-paulo-nogueira/

sexta-feira, 25 de março de 2016

AO QUERIDO AMIGO ANALFABETO POLÍTICO


Por Leonardo Mendes 

Peço que não me leves a mal por chamá-lo assim, e considere que isso não é uma ofensa, uma acusação de falha no caráter, nem mesmo culpa tua. E você não é meu inimigo.

Peço então apenas que pondere se não é verdade que nunca te interessaste por política. Se é mentira que até pouco tempo não sabias sequer diferenciar direita e esquerda. Que nunca leste livro algum sobre o tema ou atuaste em movimentos populares ou partidos políticos.

Digo então que não tens culpa, porque desde cedo foste ensinado a ser assim. A não discutir política ou desprezá-la, e tiveste toda a tua natural disposição ao tema – presente no animal político que és – cooptada por um sistema que te quer apenas como consumidor de candidatos, que te convoca a participar apenas de dois em dois anos, e que não te representa.

Como poderia, se desde o império representa os interesses de uma elite da qual tu não fazes parte. O 1% que te ilude diariamente enquanto tentas te informar no Jornal da Globo.

Lembras do editorial de O Globo contra o fim do financiamento a candidatos e partidos por empresas? E aquele contra a taxação de grandes fortunas? Talvez a capa que dizia que o 13º salário acabaria com a economia do país…

Talvez não tenhas te interessado tanto por esses temas na época, porque entre um e outro tinha um mar de lama da corrupção.

O que precisas entender então é que ser contra a corrupção não basta. Que é preciso ir muito além disso, já que hoje as maiores ilegalidades ainda são as permitidas.

Mas foste também convencido pelo 1% de que a legislação é a Justiça. De que os juízes são representantes de Deus na Terra, pois tens no Estado uma representação de teu próprio Deus, que tentas me impor. E esse Deus te garante privilégios, tu há de convir.

Apesar de analfabeto político, és homem cis, branco, hétero, com pais de classe média. Tiveste acesso a toda educação formal que sonhaste, e hoje és doutor, apesar da crise. Tens também acesso a saneamento básico, plano de saúde e a PM não está em guerra na tua comunidade.

Acreditas então na economia e no mercado, e que basta te esforçares para alcançar tudo aquilo que o 1% recebeu como herança.

Na família Marinho, que tanto escutas, por exemplo, os três irmãos herdaram uma fortuna que hoje chega a mais de R$ 60 bilhões. Isso daria para comprar algo em torno de quarenta mil apartamentos como aquele do Guarujá, que acusas Lula de ser o dono. Ainda assim acreditas que a fortuna dos Marinhos é justa, honesta e meritocrática, e que Lula é o chefe da quadrilha.

Não quero tentar te convencer do contrário, mas sim que percebas que há mais perspectivas entre o céu e a terra.

Que pode parecer mais importante para muitos uma investigação sobre a mídia e seus parceiros no judiciário, do que uma sobre um apartamento de classe média de um ex-presidente.

A desproporcionalidade no tratamento a Marinhos e Lula é diretamente proporcional a diferença dos projetos que representam. Mas tu preferes discutir pessoas a ideias, todos sabem disso, e por isso existe o Big Brother. Não é à toa também que o espetáculo midiático em torno da política se aproxima tanto do entretenimento.

Tu te alimentas de ódios e paixões produzidos por edições maldosas da mídia ou frutos do inevitável destino de toda perspectiva. O que precisas entender é que de nada importa gritar o teu ódio contra corruptos, sendo que não encontrarás ninguém que defenda a corrupção. Não em público, e mesmo Paulo Maluf já disse que confia na justiça.

Peço-te então apenas, que para o bem de todos os cidadãos (tu incluído, nesse grupo tão diverso) leias mais sobre filosofia política, invés de assistir a tantos noticiários diariamente. Podes começar trocando meia-hora do tempo dedicado a odiar o Lula em frente à TV, por trinta páginas de Hannah Arendt, por exemplo.

Ou de “A Sociedade do Espetáculo”, da Constituição Brasileira (na parte dos direitos) ou mesmo da Bíblia (nas partes que o pastor esquece).

Sei que estais cansado e que preferes ligar a televisão ou procurar no Facebook as opiniões que queres ouvir, para confirmar as tuas – William Wack, por exemplo, que facilita muito esse processo, e não é sequer preciso assisti-lo pra saber o que ele disse. Mas se desejares realmente deixar de ser um analfabeto político, esse esforço certamente é necessário.

Talvez, em pouco tempo de boas leituras diárias, até te apaixones por política, e pare de utilizá-la para descarregar frustrações ou de visitá-la apenas nas urnas de dois em dois anos.

Mas precisarás admitir que foste assim por muito tempo, e que uma parte tua deseja ardentemente voltar a ser, logo depois de derrubar Dilma e ver restabelecida a paz nos noticiários.

Sei porém que não ruminas, então te peço apenas que evite os excessos que te atrapalham a digestão dos fatos. Que evites consumir Eraldo Pereira antes de dormir, ou revistas de fofocas políticas.

Em pouco tempo teu estômago odiará menos, e terás te curado da intolerância à democracia e à diversidade de pensamento. Só assim deixarás de ser um analfabeto político, ou mesmo um idiota. Um ignorante motivado por lutas inglórias e guerras sujas, emburrecido ou preguiçoso demais para pensar e que decidiu então terceirizar o pensamento.

O Jornal da Globo agradece a audiência.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ao-querido-amigo-analfabeto-politico-por-leo-mendes/


quarta-feira, 9 de março de 2016

PROPAGANDA - Melhor documentário do Festival de Amsterdã


O cineasta neozelandês Slavko Martinov resolveu fazer um exer-cício de como seria a visão dos habitantes do país sobre nós, com o filme Propaganda. Martinov apresentou ao mundo o docu-mentário, em 2012, como se tivesse sido feito pelo governo nor-te-coreano e publicado em partes no youtube por sua suposta tradutora, Sabine. Só quando estreou no Festival de Documentá-rios de Amsterdam é que o segredo foi revelado.

“Como dizem na Itália, se non é vero, é ben trovato“, comenta o filósofo marxista Slavoj Zizek sobre Propaganda em seu livro Problema no Paraíso (Zahar). Foi Zizek quem me chamou a atenção para o documentário, e tive a mesma impressão que ele, de que “parece tão verdadeiro que é difícil de digerir”, ao mostrar como o capitalismo, o imperialismo e a manipulação de massa “permeiam todos os aspectos das vidas das massas jubilosa-mente ignorantes, à beira da zumbificação”.

O retrato que os “norte-coreanos” fazem de nós é demolidor. Nu-ma sociedade dominada pelas grandes corporações, elas usam o trabalho escravo para vender produtos desnecessários a ou-tros escravos, nós; a Bíblia é nada mais nada menos que um ma-nual de propaganda utilizado para ajudar a anestesiar o cérebro das pessoas; slogans vagos como o da Apple, “this change everything”, são utilizados porque, como não significam nada, nin guém será contra eles.

Propaganda é especialmente arrasador com os Estados Unidos e sua falsa democracia. “A democracia é só mais um slogan. Os EUA atacaram mais de 30 países e nenhum deles foi transforma-do numa democracia”, lembra o filme. Na tela, desfilam os milha-res de civis mortos nestas invasões, inclusive crianças, em cenas dantescas. Diante de iraquianos assustados, a frase do soldado norte-americano resume a diferença entre discurso e prática: “Estamos aqui pela sua merda de liberdade, se afastem!!!”

Enquanto isso, a “perigosa” Coreia do Norte jamais invadiu país algum. No entanto, sofre sanções da ONU por se armar contra os inimigos –todos eles potências nucleares não sujeitas a sanções.

Também Israel não escapa ao olhar crítico “norte-coreano”, com seu uso político de palavras como “assentamento”, quando o que fazem na Palestina é “invasão”, “confisco”, “colonização”. “Explo-ram o holocausto para se transformar em vítimas, quando as ví-timas são os palestinos”, diz o “psicólogo norte-coreano” que apresenta o documentário, meio a citações de intelectuais de es-querda como Noam Chomsky.

O mais devastador retrato pintado pelo documentário é, sem dúvida, o da indústria da moda e das celebridades. O bombar-deio cotidiano de crianças e pré-adolescentes para que comprem produtos é visto pelos “norte-coreanos” como “pedofilia corpora-tiva”. As celebridades são chamadas de “parasitas narcisistas” capazes de ir à África e Ásia “comprar crianças” para se promo-ver –sim, Madonna, Angelina Jolie e Brad Pitt não escapam.

Sobre Michael Jackson, o olhar é de pena. “Vejam o que os Estados Unidos fizeram a este homem”.

https://youtu.be/G7FAn3JZ7NQ

http://www.socialistamorena.com.br/

terça-feira, 8 de março de 2016

A quem interessa a desmoralização do BNDES?

Marcelo Zero
reprodução
Em 1996, a Embraer participou de sua primeira grande concorrência internaci-
onal.
Tratava-se do fornecimento de 150 aeronaves para as empresas americanas de
aviação regional ASA e Comer. A Embraer entrou na concorrência com o seu 
ERJ-145, um jato regional moderno e eficiente. Era o melhor avião e ainda tinha
a grande vantagem de ser o mais barato.

Contudo, a Embraer perdeu. Perdeu para a Bombardier, que oferecia melhores
condições de financiamento para os compradores, pois contava com forte apoio
governamental para a comercialização de suas exportações.

Pouco tempo depois, a gigante American Airlines lançou concorrência de US$ 1
bilhão para a compra de jatos regionais. Era a grande oportunidade que a Embra-
er tinha de pagar o custoso desenvolvimento do ERJ-145 e de se lançar no promis-
sor mercado internacional de aviação regional, que crescia exponencialmente.

Mas a Embraer sabia que não tinha a menor condição de ganhar a concorrência,
mesmo tendo o melhor avião, se não contasse com condições de financiamento 
semelhantes às que dispunham as suas concorrentes.

Resolveu, então, bater na porta do BNDES. A Embraer tinha de oferecer um finan-
ciamento à American Airlines que contemplasse não apenas taxas de juros baixas
e amortização de longo prazo, mas também a garantia da devolução das aeronaves,
caso houvesse algum problema com os equipamentos.

Para o BNDES, era uma aposta de risco considerável. A Embraer era novata nesse
mercado e, caso ocorresse algum problema com as suas aeronaves, o banco ficaria
em maus lençóis. Nenhum banco privado, nacional ou internacional, queria assumir
esse risco.

O BNDES, entretanto, resolveu confiar na Embraer e ofereceu o financiamento com
todas as garantias exigidas pela American Airlines.

Resultado: a Embraer ganhou a concorrência e, com isso, iniciou uma carreira vito-
riosa no mercado internacional de aviação regional e executiva.

Hoje, a Embraer oscila entre a terceira e a quarta maior empresa mundial do setor.
Apenas em 2013, entregou 90 aeronaves comerciais e 119 de aviação executiva, ob-
tendo uma receita líquida de R$ 13, 64 bilhões. É, de longe, a empresa brasileira que
mais exporta produtos de alto valor agregado, gerando altos rendimentos e empregos
muito qualificados no Brasil.

Assim, a Embraer e o Brasil aprenderam a lição. Não se faz exportações volumosas de
bens e serviços, no concorridíssimo mercado internacional, sem apoio financeiro go-
vernamental e bancos públicos de investimento.

A Embraer da qual tanto nos orgulhamos simplesmente não existiria, caso não tives-
se contado com o apoio do BNDES.

Ironicamente, o orgulho justificado que dedicamos à Embraer não se estende ao ban-
co público que financiou o seu sucesso e o de tantas outras empresas brasileiras.

Ao contrário, há, atualmente, uma grande campanha contra esse estratégico banco
blico de investimentos.

Uma campanha bem sórdida, por sinal. A desonestidade intelectual que cerca o deba-
te sobre a atuação desse grande banco público de investimentos é assustadora. A bem
da verdade, ou é desonestidade intelectual assustadora ou é ignorância abissal.

Com efeito, divulgou-se uma série de mentiras deslavadas sobre esse banco.

Disseram, por exemplo, que o BNDES investe muito em obras na Venezuela, Cuba, An-
gola, etc., em detrimento dos investimentos imprescindíveis para o Brasil.

Ora, como bem assinalou o presidente Luciano Coutinho, entre 2007 e 2014, as ope-
rações de apoio à exportação de serviços do BNDES corresponderam a apenas cerca
de 2% do total dos financiamentos que foram oferecidos pelo banco.

Portanto, o BNDES investe ao redor de 98% de seus recursos no Brasil.

Mesmo assim, há gente que, iludida pelas mentiras divulgadas, quer simplesmente
proibir o BNDES de dar apoio financeiro à exportação de serviços. A natureza obvia-
mente beócia da proposta deveria saltar aos olhos até do reino mineral, caso lá hou-
vesse olhos, mas há gente que a leva a sério, mesmo no Congresso Nacional.

Da mesma forma, alegou-se que as taxas usadas pelo BNDES para a exportação de ser-
viços constituíam “subsídios indevidos” às empreiteiras. Argumento muito parecido
ao usado pelo governo canadense, quando nos acionou na OMC quanto às exporta-
ções da Embraer. Ora, o uso das taxas Libor nessas operações foi estabelecido em
1996, pois, para ser competitivo no mercado mundial, é necessário praticar financia-
mentos com base em taxas internacionais.

Insinuaram também que o sigilo envolvido nas operações financeiras de exportação
de serviços destinava-se a ocultar ilícitos e favorecimentos ideológicos a governos
“comunistas” e “bolivarianos”, lançando uma suspeita indigna sobre o BNDES, ban-
co que opera com critérios técnicos rigorosos e no qual a análise da concessão de um
grande empréstimo demora, em média, 450 dias.

Ora, o BNDES não pode divulgar os detalhes dessas operações financeiras não porque
não queira, mas simplesmente porque não pode. Ele é proibido por lei de fazê-lo.

A Lei Complementar nº 105, de 2001, ratificada no segundo governo tucano, protege
o sigilo do tomador de empréstimo, independentemente do banco ser público ou pri-
vado. Não interessa se o empréstimo foi obtido junto ao Itaú, ao Bradesco, ao Banco
do Brasil ou ao BNDES: a proteção jurídica é a mesma.

Há quem argumente, entretanto, que, no caso de banco público, não deveria haver ne-
nhum sigilo. Bom, nesse caso, a lei tucana teria de ser modificada.

O problema maior, porém, não é esse. Leis podem ser modificadas. A dura realidade
do concorrido mercado internacional de bens e serviços não pode.

Imaginemos o cenário idealizado pelos que propugnam pela total transparência des-
sas operações financeiras. Caso a Embraer precisasse do apoio do BNDES para fazer
uma grande exportação de aeronaves, esse banco estaria obrigado a divulgar ao pú-
blico informações sensíveis e estratégicas da empresa, como nível de endividamento,
capacidade de pagamento, nível de exposição ao risco, probabilidade de êxito na con-
corrência, competitividade do bem a ser exportado, estratégia de atuação da empre-
sa no mercado mundial, etc.

Bonito, não? Bonito, e por certo, muito inteligente também. A Bombardier e outras em-
presas concorrentes das empresas brasileiras lá fora concordam inteiramente.

É por isso que nenhum banco que financia exportações no mundo divulga detalhes sen-
síveis dessas operações. Os americanos não o fazem, os alemães e os chineses, tam-
pouco. Ninguém faz. É fácil imaginar a razão. Menos no Brasil.

Na realidade, conforme a Open Society Foundations, principal ONG mundial dedica-
da à transparência, o BNDES já é o banco de investimentos mais transparente do mun-
do. E essa transparência não adveio de pressões recentes. Ela já fazia parte da linha de
atuação do banco há bastante tempo. Conforme o testemunho da Open Society, que
participou de muitas reuniões com o BNDES, o programa de crescente transparência
do banco avançou por iniciativa da própria gestão do BNDES.

Há muito que o BNDES disponibilizava informações sobre essas linhas de crédito que
praticamente nenhum banco semelhante do mundo fornecia. Junto com o Eximbank dos
EUA, o BNDES era o único banco que, há anos, oferecia ao público informações como
relatórios detalhados anuais, portal de transparência com possibilidade requisição de
informações e estatísticas detalhadas online.

O novo portal apenas ampliou a transparência já existente.

Tudo isso deveria ser motivo de orgulho em qualquer país do mundo. Menos no Brasil.

Aqui continuam as acusações parvas contra o banco e as iniciativas para submeter o
BNDES a uma CPI. Sempre com argumentos desonestos e mal informados.

Quando a Embraer começou a incomodar a Bombardier com sua concorrência, o go-
verno canadense logo tratou de questionar o financiamento de suas exportações na
OMC. Não bastasse, acabou levantando suspeitas de que o gado “verde” brasileiro po-
deria estar contaminado com o mal da vaca louca. Um golpe desonesto, que, por ini-
ciativa do então deputado Aloizio Mercadante, provocou a pronta resposta do Con-
gresso Nacional, o qual sustou a tramitação dos atos internacionais firmados com o
Canadá. Assim, o Legislativo brasileiro defendeu o Brasil, a Embraer e, por tabela,
o banco que financiou seu sucesso mundial.

Agora, setores desse mesmo Congresso perseguem o BNDES, com argumentos tão
toscos e desonestos quanto o usado pelo governo canadense.

Não se sabe ao certo no que isso vai dar.

Uma coisa, porém, é certa: a Bombardier agradece.

Haja vaca louca!
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-quem-interessa-a-desmoralizacao-do-BNDES-/4/34244

domingo, 6 de março de 2016

O impeachment de Lula


Quando se me impõe a solução de um caso jurídico ou moral, não me detenho em sondar a direção das correntes que me cercam: volto-me para dentro de mim mesmo e dou livremente a minha opinião, agrade ou desagrade a minorias ou maiorias”.  
Estas palavras são de Rui Barbosa, em carta dirigida a Evaristo de Morais, o grande advogado, incitando-o a assumir a defesa de José Mendes Tavares, réu previamente condenado pelo que então se chamava de ‘opinião pública’. Trata-se, como se vê, de lição extremamente atual, quando o STF de nossos dias assume a responsabilidade de violar a Constituição brasileira sob a alegativa de estar atendendo ao ‘clamor das ruas’.
Refiro-me à decisão de liberar a execução da pena de prisão após condenação confirmada em segundo grau, ao arrepio do ditado claro da Constituição (Art. 5º, LVII): “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.
Legalizando a prisão antes de definitivamente estabelecida a culpabilidade do acusado, o STF torna-se agente de um direito criminal promotorial, penalista, punitivista, reacionário, atrasado.
Caminhando na contramão da moderna criminologia, torna-se caudatário do conservadorismo e se faz instrumento do processo em curso de regressão política que visa à construção de um Estado autoritário, promovido ideologicamente pela grande imprensa.
Só o direito do arbítrio, o direito da força que anula a força do direito, pode autorizar, como acaba de fazer o STF, a execução da pena cerceadora de liberdade enquanto ainda se duvida se o acusado é culpado ou inocente.
A prisão, nessas circunstâncias, deixa de ser o ato final de um processo condenatório para transformar-se no momento inaugural das investigações, que se abrem não para apurar fatos e responsabilidades, mas para provar a culpabilidade do acusado escolhido para ser condenado.
Nesse contexto, a ‘delação premiada’ é instrumento de barganha que a autoridade investigadora manipula a fim de obter do acusado preso não necessariamente a apuração de possível crime, mas a revelação selecionada de acusações contra quem a investigação quer condenar.
Alegar, como justificativa dessa agressão jurídica, a audiência das ruas, é, no mínimo, um escárnio.
Nas ruas de Berlim sob o nazismo multidões ensandecidas julgavam e puniam seus adversários. Turbas envenenadas pela propaganda estimulavam a perseguição aos dissidentes, condenados aos campos de concentração, independentemente de culpa, mas simplesmente por serem judeus, comunistas ou homossexuais.
No vestibular da Guerra Fria o macarthismo, sem precisar refazer a Constituição ou as leis, instalou nos EUA a perseguição política e o terror, em nome de um nacionalismo xenófobo e de um anticomunismo de indústria.
Aqui, a implantação da última ditadura, em 1964, foi precedida de maciça mobilização da opinião pública, levada a cabo pela imprensa, animadora das marchas ‘com Deus pela liberdade’.
Esse especioso ‘clamor das ruas’ é o outro lado do discurso único de uma imprensa monopolizada, unificada pelo ódio, pela vindita e pelo projeto comum de poder, aquele poder reiteradamente negado às forças conservadoras pelo processo eleitoral.
É essa imprensa, poderosíssima, que escolhe as vítimas e seus protegidos, que elege os inimigos públicos escolhendo-os entre seus adversários de classe, elege os réus e os julgadores e aos julgadores dita as penas a serem aplicadas, independentemente do aparato normativo, porque na  sua aplicação é sempre possível torcer e distorcer a lei, ou criar doutrina nova, como a teoria do domínio do fato, ou refazer-se a jurisprudência, segundo o víeis de maiorias ocasionais.
Essa coalizão de direita dirige a política, dita a pauta do governo em minoria legislativa e popular para o que tem sido decisiva a oposição midiática. Essa coalizão dita o discurso oposicionista que impõe ao governo o receituário do neoliberalismo. 
Essa coalizão comanda a privatização e a desnacionalização, põe de joelhos um Congresso que tem em Renan Calheiros e Eduardo Cunha, seus líderes, o melhor indicador de sua decadência e de seu descompromisso com a sociedade, a ética e o País.
De costas para os interesses das grandes massas, cuja emergência política tira-lhe o sono, a classe dominante, despida da legitimidade da soberania popular, impõe seus interesses sobre os interesses da nação e do País.
A cantilena reacionária dos meios de comunicação é um de seus instrumentos de dominação, o mais eficaz quando se trata da luta ideológica. Foi assim no enfrentamento ao governo Vargas, foi assim na campanha contra Jango e o pleito das reformas de base, foi assim contra Lula e é assim contra Dilma. Foi assim e pelos mesmos motivos a destruição de Leonel Brizola, empreendida pelo sistema Globo.
O projeto de hoje é a institucionalização da exceção jurídico-política dentro da ordem formalmente democrática. Estamos nas primícias de uma inflexão autoritária declarada contra os interesses populares e a soberania nacional.
Daí a necessidade de destruir as organizações populares de esquerda e seus ícones, se possível desmoralizando-os moralmente diante da sociedade que sempre os respaldou.
Daí o concerto de ações. Para levar a classe-média a defender os interesses das elites, a estratégia política é a de sempre: jogar as lideranças de esquerda na vala comum da corrupção onde o capitalismo se banqueteou e se banqueteia.
Eis por que, a serviço desse poder sem peias, sem limites éticos ou legais, as estruturas estatais – os órgãos de investigação, a polícia, os ministérios públicos, as instâncias judiciais, os juízes de primeira instância e os tribunais superiores, a receita federal etc. – têm, hoje, uma só missão: provar que Luiz Inácio Lula da Silva é um político corrupto.
A desconstrução do líder popular integra o projeto que compreende a deposição da presidente, a destruição do PT e, a partir dela, a destruição e desmoralização das esquerdas brasileiras.
Assim estará aberto o caminho para a tomada do poder pela direita, pelo conservadorismo, pelo atraso, pelo fundamentalismo político, revogando ou reduzindo as conquistas sociais e derruindo a soberania nacional com a retomada do entreguismo e da onda das privatizações a serviço da desnacionalização: já agora, ante a passividade de um governo fragilizado, os mais lucrativos ativos da Petrobras (entre eles poços em atividade) são vendidos na bacia das almas e o Senado intenta doar o pré-sal – promessa de nosso desenvolvimento autônomo – às grandes petroleiras multinacionais.
A mudança política desta feita é operada sem golpe de Estado clássico, sem apelo às armas, sem nova ordem constitucional, sem novos atos institucionais. Ao contrário, efetiva-se sob o império da mesma Constituição (mas reinterpretando-a), com o mesmo direito (mas reinventando-o) mediante ‘interpretações criadoras’ como o ‘domínio do fato’.
O Brasil é, presentemente, um experimento de tomada do poder por dentro do poder, uma tomada do governo por dentro do governo, sem apelo à violência, sem ruptura constitucional, respeitada a legalidade (reinterpretada) e dentro de seus limites formais.
Esta operação depende diretamente da fragilização da presidente Dilma, e conta com seu recuo politico. As seguidas tentativas de impeachment e a resistência do Congresso à sua política servem a esse propósito. Mas não é tudo. A direita pensa longe. Ela vislumbra 2018 e alimenta esperanças de sucesso eleitoral. Trata-se, agora, já, de inviabilizar o eventual retorno do ‘sapo barbudo’.
Fragilizado o governo, fragilizadas as estruturas partidárias de esquerda, o ex-presidente Lula se afigura como o último obstáculo a esse projeto. Precisa, pois, ser removido do caminho. Por isso mesmo foi condenado pelo tribunal de exceção da grande imprensa.
Por isso, sua vida está sendo violentamente invadida, exposta, num processo de humilhação a que nenhum outro homem público foi submetido até hoje. Se afinal nada for comprovado, nenhum problema, pois a pena previamente ditada já terá sido aplicada, mediante a execração pública a que está sendo submetido o ex-presidente.
Esta operação, em curso, conta com o recuo, via intimidação, do ex-presidente. Está, pois, em suas mãos o que fazer, e só lhe resta a mobilização das massas. O Lula acuado é presa dócil. Nas ruas é promessa de luta, resistência e avanço. Foi assim que em 2005 transformou uma cassação iminente na consagração eleitoral de 2006.
A escolha agora é dele: sucumbir sem glória, ou encarnar a resistência à destruição da proposta de fazer do Brasil uma nação soberana, desenvolvida e socialmente inclusiva.
http://www.jornalggn.com.br/noticia/o-impeachment-de-lula-por-roberto-amaral